DIO GENNI

Quem é “Dio Genni”?

Dio Genni é aquele tipo de pessoa que você só encontra aleatoriamente, pois chamá-lo para dar um rolê nunca dá certo, ele nunca está disponível. Quem o vê de fora pensa que Dio Genni é popular — seu riso fácil, contato visual firme e indisponibilidade dá essa impressão. Mas a verdade é que ninguém conhece Dio Genni de verdade, pois Dio Genni só conhece a si mesmo. Uma vez tive uma conversa estranha em sua casa (uma das raras vezes que fui lá):

– Já somos amigos, porém o Navia me conhece mais que você.

– Quê? Quem que é Navia, Dio?

– Olha pra trás.

“Glup-glup”, fez Navia. Navia era seu peixinho-dourado. Porém esse episódio nada se compara com o que aconteceu um tempo atrás…

Era época que o SARS-CoV-2 estava solto nas ruas e eu estava com suspeita de coronavírus (estava tossindo e espirrando muito, mas era só uma gripe), o que tornou toda essa época ainda mais angustiante. Tive que ficar no meu quarto o tempo todo, minha mãe colocava o prato de comida no quarto, eu abria a porta e pegava. Quando eu andava pela casa, eu tinha que andar um spray de álcool e usar em tudo que eu relava e eu não podia estar no mesmo cômodo que minha mãe, pois ela não estava infectada e morria de medo de pegar o vírus. Meu tio, que era médico, ficava de olho em mim, perguntando sobre meus sintomas no whats de hora em hora, pra ver se eu não precisaria ser entubado. Eu nunca fiquei tanto tempo sozinho na minha vida! Só de lembrar me dá agonia… Eu não tinha nada para fazer, além de ver Netflix e bater punheta. Eu não sabia desenhar, não sabia tocar instrumentos, não sabia programar, não sabia cantar, não sabia nada! Odiava ver aqueles posts “use seu tempo para fazer algo criativo!” — porra, eu não sou criativo! Sou apenas extrovertido. Adoro estar com pessoas e conversar… Esse que é meu lance.

Vocês conseguem, agora, imaginar minha felicidade quando foi declarado o fim da pandemia! Saí correndo para a rua! Chorei quando vi pessoas reunidas e conversando! Eu andava com um sorriso aberto de orelha à orelha… Aproveitando o momento, fui correndo para o Igapó, um lago com um circuito de corrida em volta que tem aqui na minha cidade. Avisei nos meus stories no insta que eu estaria lá e que era para todo mundo colar para comemorarmos. Chegando lá, avistei alguns amigos e amigas (tinham tido a ideia antes de eu!). Fui lá e dei um abraço longo em todo mundo. Porra… Agora podia ter contato humano! Que maravilha! Ficamos conversando por horas. No fim eles falaram “estamos indo no Up!, quer ir?”. Falei que sim, mas que ia passar no mercado ali perto para pegar algo para comer. Fui lá andando rápido, pois a fome estava crescendo. Chegando lá, vi ninguém mais, ninguém menos, que Dio Genni, saindo com uma sacolaa de mercado em uma das mãos e um cigarro aceso no outro! (ele já estava fumando lá dentro?). Ele estava usando um óculos escuros espelhado e uma das lentes estava quebrada. Fui lá comprimentá-lo e dá-lo um abraço:

– E aí, Dio Genni, seu cachorro! Quanto tempo, cara! – abracei-o, mas ele não conseguiu abraçar de volta, estava com as duas mãos ocupadas (eu também nem pensei nisso na hora). Comecei a puxar papo:

– Porra… Que doidêra tudo isso né, Dio?!

Depois de soltar a fumaça de seus pulmões, ele disse:

– A sociedade é uma doidêra mesmo, cara.

Não tinha sido sobre isso que eu tinha comentado, mas não quis trazer isso à tona. Puxei assunto de novo:

– Mas me fala, o que o bruto Dio Genni fez trancafiado em sua casa?!

Ele me deu um olhar de surpreso, depois sorriu.

– Ah, cara, fiz o que sempre faço… Joguei um videogame, comi um pãozinho com tomate e queijo derretido na brasa, assobiei…

Eu não sabia se sua resposta era sincera ou se ele tava me zoando… Não conseguia olhar em seus olhos, pois com seus óculos eu só via a mim mesmo (e eu não gostava disso). Dei uma risada e falei a coisa mais neutra que veio na cabeça:

– Eeeeeee, Dio! Cê é foda!

Ele sorriu e ficou ali, tragando seu cigarro e olhando para mim, como se estivesse curioso para o que eu traria de conversa. Isso me deixou ansioso e só consegui pensar no óbvio:

– Me fala, tô curioso, Dio Genni! Cê pegou corona?!

– Como você sabe?! – Falou Dio muito surpreso e rindo. Colocou a sacola de compras no chão e deixou o cigarro do lado. Pisou no último, e tirou alguma coisa da primeira.

– Você é um vidente desgraçado! – falou para mim rindo. – Eu peguei justamente Corona! Não tinha Heineken, cara!

Eu fiquei boquiaberto… Não sabia se Dio Genni era um mestre da comédia ou se ele estava completamente alienado sobre o que aconteceu nos últimos meses. Enquanto eu ficava lá, sem reação, Dio Genni abriu a breja que segurava e me passou outra, fechada. Brindou sua cerveja na minha:

– Ao oráculo de Delfo aqui! – e nisso virou a cerveja dele. Tomou tudo de uma vez! Deu um longo arroto — era realmente um bruto — e disse:

– Tenho que ir nessa, cara! Tenho coisas para fazer.

Acendeu outro cigarro, colocou-o na boca e pegou a sacola de brejas do chão. Me deu um tapinha nos ombros e partiu. Fiquei ali parado… Refletindo em tudo, enquanto via Dio Genni esvaecer-se no meio da fumaça que cuspia e exalava. O que havia sido esse encontro? Em que mundo Dio Genni vive? Será que ele faz stand-up? Ou era — Dio Genni — um alienado total?

Se passaram três semanas e ainda não tenho as respostas sobre o que aconteceu ali. Na próxima vez que encontrá-lo, ei de investigar. Não posso deixar com que ele me atordoe a ponto de eu perder as palavras! Não… Na próxima vez eu estarei preparado para lidar com Dio Genni… Só espero que isso não custe minha sanidade.

Publicado por Arthur Lorenzo

Eu, na escuridão, tenho minha própria fonte de luz.

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