Não me venha com poesia

Não, não há uma tragédia. No sentido dramaturgo, para que ela exista, é preciso haver alguma promessa de final feliz. O que temos é mais frio que isso. É inevitável. A dúvida não é SE nos derrubará, mas quanto tempo levará para nos reerguermos. Neste contexto, é natural que a consciência busque conforto em discursos humanitários, em palavras doces, em utopias de céu limpo e enredo simples. Não há mal em encontrar asilo naquilo que alimente suas esperanças contanto que essa busca termine na ficção e não na mentira. Afinal também é para isso que existe a arte, para na falta de esperança, encontrarmos asilo na natureza vista pelos olhos de Alberto Caeiro e nas teses poéticas de Millôr Fernandes, mas não dê ouvidos a qualquer poeta contemporâneo. Diferente do que dizem, nem tudo é poesia, na maior parte das vezes é só o choro de um romântico frustrado que se acha muito inteligente.

O romantismo na literatura é a representação de uma fuga. O romântico foge do concreto, do pó, do aço e corre em direção ao campo. Ele é aterrorizado pela modernidade, pois acredita que ela cria pessoas frias, insensíveis, isentas de afetos e valores, corrompidas pela eficácia, pela produtividade e pelo dinheiro. A cidade é a personificação disso. Por isso, quando se lê um poema condenando a lógica capitalista e ao mesmo tempo te convidando para um mundo cheio de sentimento e empatia longe da economia e do mercado, ele não é um poema sensato, politizado nem novo, ele é romântico… e provavelmente só isso.

O mal que virá é real, não tenha dúvidas. O motivo, apesar de invisível, é natural e observável. Um vírus que sofreu alterações genéticas ocasionalmente se adaptou muito bem ao corpo e estilo de vida da nossa espécie. O seu berço foi uma das maiores potências do mundo, a China, que apesar do sistema político totalitário e uma ideologia comunista, apresenta um desenvolvimento econômico nunca visto antes na história.

Nunca se tirou tanta gente da extrema pobreza em um espaço de tempo tão curto, nos últimos 30 anos houve uma colossal migração do campo para a cidade. A era de vergonha e miséria promovida por Mao Tsé-Tung acaba nas reformas de Deng Xiaoping. A partir de então passa a existir no país a propriedade privada, os acordos comerciais externos, a urbanização e o consumo. Instaura-se uma economia de mercado para surgir uma inédita classe média.

O paradoxo chinês da política totalitária caminhando ao lado de uma economia de mercado é o resultado de uma conclusão lógica do sucessor de Mao. Ele percebeu que para retirar a sua população da pobreza, era preciso produzir riqueza e que para isso jamais existiu ferramenta melhor do que o capitalismo. Portanto, o que salvou os chineses da miséria não foi um ideal coletivo e uma vida no campo, foram a cidade, o lucro e o mercado. Proferir no seu poema que a lógica capitalista é o maior problema da humanidade quando um mal previsto se aproxima não é poesia, é demagogia… ou na melhor das hipóteses, uma piada.

O estado de quarentena, o distanciamento social e a contenção do comércio é a melhor defesa que temos contra esta pandemia e não é preciso romantismo para chegar em tal conclusão. A razão basta. Não lotar os leitos e salvar vidas, também é poupar dinheiro e diminuir riscos. A difícil escolha de apertar as pontas agora para se salvar no futuro é pura economia. Então por favor, não me venha com isso que você chama poesia.

Publicado por Marcos OGS

https://twitter.com/marcosogsantos 🐦

2 comentários em “Não me venha com poesia

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