Quarentena

Um dos males que afligem as pessoas razoavelmente confortáveis com a vida é o tédio. Por mais que atividades tenham sido feitas, seja trabalho, jantar com a família, academia, escola ou faculdade, o tédio surge; até mesmo durante tais situações. Por que me referir às pessoas confortáveis com a vida? Porque as pessoas que têm responsabilidades que não cessam, tendem a não sentir o tédio. Há sempre motivação, apesar do desgaste emocional e físico, existe um objetivo a ser honrado.

Às vezes as responsabilidades adquiridas não são suficientes para inspirar a ação; associo muito à desutilidade do trabalho, ou seja, ver o trabalho como tortura. Se tal trabalho for um meio para manter sua família, e isso for importante para você, tal desutilidade terá um significado que inspira, apesar da tortura. Mas se o motivo pelo qual você está em um trabalho que considera, no mínimo, desagradável, for algo não tão significativo, o tédio e o desagrado tomarão conta de cada crise existencial.

O filósofo Spinoza faz a observação de que existem paixões fortes e paixões fracas; as fortes são aquelas cujo reforço é imediato (o prazer carnal é um dos maiores exemplos) e as fracas aquelas que, apesar das consequências serem positivas, tendem a demorar a vir, ou não têm uma materialidade como produto. Quando nos sujeitamos, voluntariamente, ao desconforto – até mesmo ao sofrimento – por causa de uma paixão fraca, é aí que o significado, a motivação de viver, tende estar. Não é a única maneira de dar significado para a vida, mas é uma boa aposta. Victor Frankl, psiquiatra, autor do livro “O homem em busca de um sentido” e fundador da logoterapia, faz o mesmo apontamento, mas com outras palavras. As paixões que nos motivam a aguentar qualquer sofrimento costumam ser as que o Spinoza chama de fracas. Talvez as palavras utilizadas por Spinoza já nos remetem a algum tipo de julgamento de valor; apenas digo para o leitor evitar tal ato.

O psiquiatra enfatiza que é possível encontrar significado na vida apesar do sofrimento. Normalmente, a experiência de encontrar tal significado se dá quando 1-) algum trabalho é feito, seja prazeroso ou não; 2-) experienciar algo ou encontrar alguém; e 3-) quais escolhas são feitas durante um sofrimento inevitável.

No texto “Tratado de correção do intelecto”, Spinoza reflete sobre o dinheiro, o prazer sexual e o status social como motivações; caracterizando tais elementos como paixões fortes. A única maneira de eles serem significativos e se forem meios para algo além; tais elementos, por si só, não proporcionam substância suficiente para se viver feliz (no sentido de ser uma vida com significado, por mais sofrida que possa ser). Já Frankl aponta que tais elementos, caso buscados com afinco como fim em si, demonstram um “vácuo existencial”, para substituir o sentido da vida pelas paixões mais imediatas, mas, como são fins em si mesmos, não promovem o significado profundo que a própria condição de ser humano demanda. Além disso, também aponta o tédio como sintoma de tal “vácuo”.

Finalmente venho com a pergunta: como está a quarentena de vocês? Vejo muitas pessoas nas redes sociais anunciando o tédio, como eu; tive conversas em que observei a “vontade de prazer” espalhando-se por todo o território dos pensamentos, seja pelo sexo ou pela constante procura de quaisquer substâncias que cutuquem o sistema dopaminérgico, como açúcar e certas drogas, como eu. A bebida também têm sido muito procurada; entorpecido, o tempo passa mais rápido.

Apesar de tudo, é possível tirar algum proveito de toda essa situação. Estando em casa, teremos a possibilidade de meditação e reflexão que muitas vezes são necessárias, mas a vida corrida não permite. Muitos ainda terão o home office, mas ainda assim é uma brecha muito boa para tirar algumas conclusões. Quais ações andamos tomando? Quais valores norteiam nossas ações? Quais consequências nossas ações têm? O que tenho em minha vida que é significativo? O que eu poderia mudar? Estou passando por algum sofrimento evitável? Qual o motivo de eu estar passando por tal sofrimento? Uma das formas que a logoterapia convida para a reflexão é com a seguinte ideia: “viva como se você já estivesse vivendo pela segunda vez e que você esteja para agir tão errado quanto agiu na outra vida”.

Além da meditação, a quarentena também abre a possibilidade para colocar os exercícios em dia. Na internet há diversos materiais sobre exercícios com o próprio peso, desafios diários de corrida etc. O paradigma filosófico do sensualismo propõe que a filosofia deve servir à saúde, pois sem saúde não há vida e sem vida não há filosofia; por exemplo, é possível encontrar significado em fumar um cigarro, mas como que isso te aproxima de alguma realização pessoal? Temos que tomar cuidado com certas coisas que são significativas; não são sempre boa.

Também pode ser momento para aprender. Diversos cursos online disponibilizaram-se gratuitamente, dos mais variados temas. Muitas pessoas procuram mudar as carreiras e essa abertura promovida pela quarentena pode te auxiliar nisso.

Nos encontramos em jaulas contra nossa vontade, impedidos de ocupar nossa atenção com as coisas do dia a dia. Talvez distrações, talvez situações realmente significativas. É possível usar a quarentena para avaliar a si mesmo em muitos aspectos e aprender coisas novas, para voltar ao mundo renascido, melhor. Tudo isso depende de como iremos agir, de quais objetivos temos a pretensão de alcançar

Enfim, esta está sendo minha quarentena: revendo os sofrimentos que vivo, como me comporto, colocando os exercícios em dia e descobrindo que agradecendo muitas das coisas que vivo e vivi, desde pequenas coisas como ver o início da primavera na Inglaterra, até relembrar momentos com meu pai e o quanto ele e minha mãe promoveram a vida confortável que tive. Sofro de tédio, mas agora sei o que posso fazer com isso. Pouco a pouco, o tempo passa mais rápido, pois estou aproveitando e fazendo atividades mais produtivas, como escrever este texto.

Publicado por Vinicius Souza Vitalli

Psicólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (Bachelor's in Psychology). Metendo o louco pelo mundo para ver no que dá. Atualmente in Dublin. (Currently living in Dublin). Tenho o objetivo de auxiliar as pessoas com seus respectivos objetivos.

Um comentário em “Quarentena

  1. De certa forma esta quarentena até ajuda a nós conectarmos com nós mesmo, isso é quando a pessoa deixa ou deseja se conectar. Seu texto é intenso e tem muitas nuances que são deveras verdadeiras. Caríssimo agradeço a sua visita e aguardo novas palavras.

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