Sobre celulares no metrô

É assustador ver todos utilizando o celular no metrô. Lembro daquela comparação com o jornal , que este seria uma ferramenta anti social. Erraram, pois o jornal não ativa os sistemas do prazer tanto quanto o celular. A premissa era plausível: um objeto no qual as pessoas se esconderem, apesar de estarem em espaços públicos, evitando o mundo fora do que os sistemas do prazer focam. Engraçado que isso vai de encontro com o carpe diem/“aproveite o agora” no sentido hedonista, por estarem usufruindo o momento da maneira mais prazerosa que encontraram naquele momento. Apesar de que, se associar tais ideias a uma ética espinosana, ou seja, o aproveitar agora como ter consciência do mundo que há ao redor de nós e o potencial de ação seja orientado para explorá-lo, tenham uma potência gigantesca. Talvez a frase “perceba o agora” seja uma melhor forma de interpretar isso, pois implica a consciência identificando tal objetividade, faltando ‘apenas’ a ação.

Assim, vejo certa importância na meditação e no mindfulness como ferramentas importantíssimas. A aura esotérica sobre elas muitas vezes impede seu potencial pleno, pois criam expectativas sobre os possíveis efeitos da “ampliação da consciência”; um marketing que afasta parte do público para além dos adoradores de São Tomé das Letras, o que acaba banalizando esses elementos como simples comportamento de bicho grilo. Apesar disso, terapias e serviços de desenvolvimento pessoal estão adotando tais elementos em suas metodologias, por causa de suas efetividades práticas.

Aí que Aristóteles cai bem, assim como Mises, Spinoza e o paradigma sensualista, como estrelas do norte para a maneira que selecionamos e organizamos nossos valores e métodos para conhecer o mundo. O primeiro traz a ideia da realidade como algo supremo sobre nossos desejos, além de que a felicidade e o desenvolvimento das virtudes estão ligadas; o segundo nos lembra que o valor é algo subjetivo e pessoal; o terceiro, que explorar o mundo é uma ótima fonte de felicidade; o sensualismo mistura os três autores citados em sua visão metafísica, sugerindo que, além de tudo, o objetivo final das nossas ações deveria ser a saúde e a filosofia é a ferramenta para hierarquizar os valores a fim de nos aproximar de tal objetivo. Esta última eu diria que é um tanto radical quanto ao foco dos esforços para a saúde. Algumas atividades não tão saudáveis podem ser significativas, como diversos esportes radicais, que aumentam significativamente a probabilidade de fraturas e, até mesmo, morte. Talvez seja mais interessante focar em não usar drogas, pelo menos com tanta frequência, mas que a filosofia é a melhor ferramenta para estruturar nossa hierarquia de valores é inegável. Retomando, tais aspectos demonstram que é possível falar sobre a consciência do mundo e a capacidade de minerar virtudes proporcionarem felicidade.

É muito comum culparmos as ferramentas pelas consequências negativas das nossas ações. Ora, os objetos em si não são agentes, os humanos que são. Podemos utilizar quaisquer objetos para atingir uma infinidade de objetivos. Algumas drogas auxiliam no tratamento de depressão, ansiedade e dores crônicas; algumas dessas mesmas drogas proporcionam efeitos psicoativos e são amplamente usadas para fins recreativos ou de fuga da realidade (às vezes, estas finalidades estão combinadas). As armas levam a culpa por diversos assassinatos, altos índices de suicídio, apesar de também terem salvado a vida de muitas pessoas, por ser um instrumento de autodefesa extremamente eficiente e prático que, com certo treino, qualquer um pode utilizá-lo. Até mesmo caminhões foram culpados por atropelamentos na Suécia, por exemplo. Os celulares e, de maneira mais abrangente, a internet, são iguais nesse aspecto. Apesar das diversas capacidades de uso para objetivos que minam nossa atenção e ativam sistemas de recompensa a fim de nos viciar, podemos utilizar o gps e ainda combiná-lo com algum aplicativo de entrega para o próprio sustento; nos comunicar de maneira nunca antes vista na história; ver videoaulas; e compartilhar ideias. Nós mesmos fazemos as ferramentas serem anti sociais. A capacidade de minerar virtudes está em nossas ações.

A nossa própria capacidade é assustadora. Bombas atômicas mataram diversas pessoas inocentes, ao mesmo tempo que colocam uma guerra de maior escala em cheque; duas pessoas foram assassinadas a tiros em uma igreja no Texas, e o atirador foi morto, a tiros, por um segurança voluntário; remédios e vírus são feitos em laboratórios; a quarentena pode ser entediante ou transformadora; e os celulares, prisões ou mais um pequeno pixel de toda a imensidão das possibilidades.

Publicado por Vinicius Souza Vitalli

Psicólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (Bachelor's in Psychology). Metendo o louco pelo mundo para ver no que dá. Atualmente in Dublin. (Currently living in Dublin). Tenho o objetivo de auxiliar as pessoas com seus respectivos objetivos.

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