Desdobre estes joelhos

A admiração das pessoas pelas ideias sustentadas por escritores considerados a personificação do anjo caído, tal qual Ayn Rand e Jordan Peterson, se da pelo mesmo motivo que admira-se as ideias de Nietzsche.

A voz destes demônios ecoa que o processo de superação de si mesmo é o melhor trajeto para se alcançar algo próximo do que convencionamos chamar de felicidade e que no fundo é o resultado de conseguir enxergar-se caminhando em direção a algum propósito. Muitas vezes o infeliz está no caminho certo, mas não se da conta e de nada adianta. Outras vezes o infeliz não está neste caminho, mas ilusoriamente enxerga-se nele e compra para si o risco de uma tremenda desilusão futura. O ponto chave da auto-reflexão vai além do questionamento sobre a nobreza do próprio propósito. Através da análise de decisões passadas e dos comportamentos atuais, ela tem o objetivo de prever se a tragetória em que você se encontra levará para mais próximo ou mais distante do alvo que se deseja. Numa dessas talvez você se encontre na rota correta, caso contrário, quanto antes descobrir-se errado, menor será o custo de um reajuste.

O propósito em si também é essencial. O mal do ateu passivamente niilista, por exemplo, é subestima-lo. Encontrar diversas provas na realidade sobre a insignificância da própria espécie pode ser debilitante, mas não é incontornável. Por mais que este ateu não possa designar um significado para a existência de tudo, ainda é possível encontrar um propósito para si próprio. O segredo é que este significado seja realista e sólido, isto é, que ele seja o mais independente possível de qualquer fator que esteja fora do seu controle. Mudar o mundo ou ser promovido não são bons propósitos, pois a conclusão deles muitas vezes não dependem exclusivamente de si, mas do coletivo ou de um chefe muito burro.

Agora, procurar conhecer mais sobre os processos em torno do seu trabalho, gesticular e discutir sobre eles de um modo cada vez mais seguro, encontrar problemas que estão ao seu alcance para então resolve-los dependerá apenas de você. O resultado talvez não seja o reconhecimento do seu chefe, mas com certeza será a expansão do seu repertório sobre o funcionamento de uma empresa e o aumento de sua confiança para encontrar um novo emprego ou para tocar o próprio negócio. Todo santo dia procurar entender um pouco mais sobre as ferramentas que moldam o mundo, ao invés de simplesmente querer muda-lo, dependerá apenas de você. Qualquer valor realmente significativo que a humanidade venha colocar no que for de autoria sua será o resultado deste entendimento diariamente lapidado, mas lembre-se que talvez o mundo jamais te valorize. Por isso a sua curiosidade, o prazer de desvendar os seus próprios mistérios e dúvidas sobre o que quer que seja, não deve servir como meio para nada, apenas como um fim.

Este foco egoísta na defesa e lapidação da própria individualidade ou como talvez dissesse Aristóteles, na sua singularidade, não tem nada a ver com a demonstração de superioridade nem com a dominação do mais fraco, mas com deixar de buscar um bode expiatório para o seu fracasso. Não foram os imigrantes que te roubaram os empregos, não foram os judeus que te fizeram perder a guerra nem foram os burgueses que inventaram a pobreza ou a violência. A matriz do seu sofrimento é derivada de algo mais complexo do que isso. Muitas das engrenagens que dificultam sua vida são irreversíveis, é verdade, estão além do seu controle, mas ainda existem as que são movidas por decisões suas. Não espere que as engrenagens superiores decidam parar e te ajudar. Não se engane com a idealização de uma sociedade perfeita oriunda de uma sequência magnífica de impecáveis decisões políticas, porque as limitadas opções frente às reais situações sempre apresentarão um custo significativo. O preço da democracia será uma cadela da ditadura sempre no cio e o preço da liberdade de expressão será ouvir os berros dos maiores idiotas. Os tais monstros citados lá em cima ensinam que a maioria das decisões importantes sobre a sua vida também terão um enorme custo a ser ponderado, pois ao lado do sentimento de motivação, propósito e significado que as grandes responsabilidades proporcionarão, virá a ansiedade de um possível fracasso onde o maior culpado não será ninguém além de você. Este é o grande fardo de Atlas quando apoia o próprio mundo sobre as costas.

Mas estas ideias são perigosas, estão longe de serem inofensivas, exatamente por serem poderosas. Quando o nazismo olhou para Nietzsche, não viu só uma tentativa de reforma do homem através de uma ideologia heróica, viu o líder religioso de uma seita racista onde os fracos deveriam ser governados pelos fortes. Bastou meia conclusão sobre uma vasta obra filosófica para um líder autoritário tão poderoso quanto cruel conseguir fundamentar sua teoria de dominação. Porém, a destruição do povo nórdico defendida pelo filósofo foi feita pela mão de um ideal cristão vitimista contraditoriamente adotado e apontado aos judeus pelo líder nazista. A má compreensão fascista sobre Nietzsche se deu pelo fato dos auto proclamados arianos não compreenderem que a metáfora do super-homem deveria se apresentar na alma de cada indivíduo livre, não como encarnação de um único líder ou comandante de um grande Estado.

O ideal nietzscheano desromantizará o progresso da humanidade enquanto os grandes líderes existirem, enquanto a individualidade não for plenamente exercida, enquanto não houver solidez nos propósitos de cada ser humano, pois se os ditadores ainda nos governam, é porque estamos todos ajoelhados e de super-homem não temos nada.

Publicado por Marcos OGS

https://twitter.com/marcosogsantos 🐦

Um comentário em “Desdobre estes joelhos

  1. Ótima reflexão. Raulzito dizia que é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro. O sistema, por um lado, brutaliza o indivíduo. O indivíduo, por sua vez, se acomoda em meio a animalidade. Temo ser esta a sina dos que almejam a universal emancipação individual: nem todos a desejam. E se a máxima de Bakunin “a liberdade do outro estende a minha ao infinito” estiver correta, talvez tal emancipação fique à distância da linha do horizonte. No entanto, não seria pedir demais que estipulássemos um “common ground” menos instável do que as tiranias e seus protótipos. Seguimos.

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