Uma Realização Irônica

Eu só queria a resposta da prova. Há tantas maneiras de comunicar algo, seja apontando para um objeto que comece com a letra da alternativa, utilizando os dedos para sugerir qual a opção… Além do que a criatividade pode gerar na hora. Mas não, escolheram sussurrar. Justo para mim, que nunca entendi sussurros!

Telefone sem fio é uma brincadeira terrível para mim. A frase sempre mudava drasticamente quando chegava a minha vez. Talvez a palavra odiar seja mais adequada para descrever como me sinto em relação a tal brincadeira. “A porca é rosa” virava “A torta em prosa”; “Arroz com feijão”, “Albatroz no chão”. Observar outras crianças brincando disso me fazia questionar se eu tinha algum problema; era raro elas errarem tão feio quanto eu errava.

Certa vez uma menina muito tímida, mas muito bela, veio falar comigo. O rubor de sua face se assemelhava a uma maquiagem pesada e me evocava vergonha semelhante. Seus lábios inchados se camuflavam com o resto da paisagem simétrica e charmosa de seu rosto.

– Eush shto sto … – Pelo menos foi isso que ouvi.

– Oi?

– Eu… shto de vosh… – Confesso que já estava entendendo pelo contexto da situação. Como nunca tive muitos escrúpulos, resolvi ser direto:

– Olha, eu acho que você está tentando dizer que gosta de mim – Sim, eu sei. Poderia ter sido mais amigável.

Ela fica ainda mais vermelha, abaixa a cabeça e andou vagarosamente para fora da sala. Esqueci de comentar que tudo isso se passou no ensino médio; aliás, estou no terceiro ano. As amigas dessa menina ficaram muito bravas por eu ter sido rude, apesar de que eu diria que fui direto com a guria. Certas sutilezas da vida me escapam pelos dedos e talvez eu estivesse namorando uma donzela hoje.

Voltando à tentativa falha de cola, adiciono que a prova é de literatura. Não fiz questão de ler nenhum dos livros, ao ponto de nem ao menos lembrar quais eram ou quem eram os autores. Não foram só sutilezas que deixei escapar; também deixei oportunidades de entrar em contato com outras belezas dessa vida. Esqueço de mencionar que eu estou pedindo cola para a mesma menina que se declarou para mim.

– É a alternativa “d” – Disse ela com um pouco mais de volume. A professora ouviu.

– Fulana e Cicrano! – quero manter meu anonimato – Não acredito que estão passando cola! Entreguem as provas agora e encontro vocês na sala da diretora. Esperava mais de você, Fulana.

Eis que a menina começa a chorar descontroladamente. Me senti mal, de certa forma a culpa foi minha. Tentei consolá-la com um abraço e um pedido de desculpas tão macio quanto veludo. Mas ela não estava muito consolada:

– Tô cansada! Você me trata mal e só me mete em rolos que não mereço. Sei que não mereço!

– Não quis que isso acontecesse…

– Quer saber, estude da próxima vez! Ou procure alguma outra otária para ir pro buraco junto com você.

A única coisa que passa pela minha cabeça é: queria entender sussurros.

A sala da diretora me lembra um consultório. Por que tudo tem que ser tão branco? A organização parece até mesmo patológica. Me lembra o livro Admirável Mundo Novo, em todo seu autoritarismo. Será que os professores escolhiam certos alunos para desenvolver e outros não? Quais os critérios? No ambiente nublado de meus pensamentos, acabando não vendo a perna de mesa. Tropeço. Bato a cabeça no chão.

Não sinto nada. Aos poucos minha visão vai ficando menos ofuscada. Estou em uma mesma sala branca, mas agora deitado sobre uma maca. Sinto as agulhas enfiadas em meu braço. O que será que aconteceu? Lembro de ter sido mandado para a sala da diretora… Ué, desde quando a médica está do meu lado? Tem alguma coisa escrita no caderno que ela segura… “Por favor, mantenha a calma e pisque duas vezes seguidas para eu mudar de página”. Pisco. “Aconteceu um acidente em que você bateu a cabeça. Segundo nosso diagnóstico, você pode ter dificuldade para processar sons”. Pisco. “Neste momento, vou falar”. Vejo seus lábios se mexendo, mas não escuto som algum. Meu Deus, o que está acontecendo? Começo a me debater e apago. Acordo e tento gritar. Minha família, que agora estava na sala também, se assusta, mas eu continuo não ouvindo nada. Não entendia sussurros, agora entendo apenas a escrita. O que será da minha vida?

Após sete anos de treino, consigo ler lábios perfeitamente. O mais engraçado é que agora, se eu puder ver os lábios da pessoa, também entendo sussurros

Publicado por Vinicius Souza Vitalli

Psicólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina (Bachelor's in Psychology). Metendo o louco pelo mundo para ver no que dá. Atualmente in Dublin. (Currently living in Dublin). Tenho o objetivo de auxiliar as pessoas com seus respectivos objetivos.

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