SPECIAL JOHNNY

João era um cara comum. Gostava de falar sobre mulher, sobre futebol, evitava falar de religião e de vez em quando entrava em algum debate político se houvessem mulheres assistindo, mesmo que ele não soubesse nada de política. Como a maioria dos caras de sua geração, João teve uma educação pautada em tratá-lo como alguém especial… Nunca venceu em nada, mas sempre ganhou uma medalha e sorrisos das mães (os pais não sorriam para perdedores). Aprendeu logo cedo que concordar com as mulheres aumentava sua chance de ser defendido por elas (e em sua cabeça ele imaginava que o beijariam). “João é tão bonzinho! Ele sim vai ser um homem de verdade quando crescer!” — mal ele sabia que babar ovo para mulher não era a melhor estratégia de sedução… Mas, sendo um cara comum, aprendeu a parecer confiante com o tempo: gritava na TV do bar vendo jogo do seu time, elogiava as mulheres bonitas (não lindas, pois essas eram perigosas para a auto-estima) e ria alto, o que indicava às mulheres (também comuns) que João podia ser um parceiro em potencial. João aos seus 22 anos, fazendo a faculdade de engenharia civil, já estava namorando quem viria a ser a mãe de seus filhos. Se formou, começou a trabalhar no lugar que fez estágio, e engravidou a mulher. A pressão da vida veio pesando em suas costas, assim como nas costas de todo homem. Era preciso ganhar mais dinheiro, comprar uma casa e um carro, pagar as contas, acalmar o bebê quando ele acordava de madrugada e deixar a mulher feliz. Com a pressão crescendo, João, assim como todo homem, pensou em suicídio, mas achou que estava cedendo muito à sua fraqueza. Contudo, não sabendo como espantar tais pensamentos, perguntou aos seus amigos o que fazer. Hamilton o mandou voltar a jogar futebol toda semana — ah, mas João não tinha tempo para isso, Hamilton era solteirão e não entendia o contexto de ter uma mulher e um filho. Seu outro amigo, Pedro, o mandou escrever sobre seus sentimentos num papel e praticar meditação. Porra, última coisa que João queria era lidar com seus sentimentos e ficar parado pensando em tais pensamentos sombrios. Seu último amigo, Jeremias, o mandou assistir uns vídeos no Youtube de um cara que entrevistava pessoas fudidas. Falou para João que aquilo o havia tornado muito mais agradecido e não tinha mais dúvidas sobre a qualidade de sua vida. Então, num sábado, quando sua mulher estava dormindo, João ligou o PC e clicou nos links dos vídeos recomendados por Jeremias. Um cara sorridente e corajoso olhava para uma pessoa sem olhos e nariz, que contava como sua vida valia a pena: “eu sei que sou feio, mas sorrir para as pessoas, sabendo que sou feio, me faz feliz, pois vejo o quão corajoso eu sou! Minha mãe já deve ter pensado em me matar enquanto eu durmo, porém ela nunca o fez. Ela no fundo sabe que eu tenho alma de espartano e que sou capaz de tudo, até de ir pra Lua. Não importa quem você é por fora… Basta você sentir seu coração! Eu amo quem eu sou e você nunca deveria duvidar do amor que Deus tem por você!”. João chorou. Aquilo era uma mensagem maravilhosa! Viu o ser mais feio que já tinha visto dar uma aula de superação e amor próprio. Clicou em outro link. Dessa vez era uma mulher sem braços e pernas e ela também sorria e tinha uma mensagem de superação: “já fui passada de cara em cara em estupros em gangue, pois não tenho meios de me defender. Sim, fui estuprada mil vezes. Eu sou uma boneca inflável para homens sem coração e sem moral. Porém, hoje em dia sou mais forte do que nunca. ‘Como?!’, você me pergunta. Porque depois de tanto tempo sofrendo, eu vi que já não tinha como eu sofrer mais. Já tinha atingido o limite! Pra mim foi uma espécie de iluminação – o nirvana! Tudo é uma piada cósmica! OK, eu não tenho braços, nem pernas, mas tenho um coração, o que muitas pessoas não tem. Comecei enxergar que muitos enxergam defeitos como sendo meramente físicos… Mas pra mim, os maiores defeitos são os espirituais! E nesse campo, reconheço minha beleza! Enxerga-se! Olhe para si e sorria! A existência pode ser bela, por mais horrorosas que sejam suas experiências…”. João limpava o rosto com o braço peludo… Chorava como nunca tinha chorado antes — a não ser quando veio à esse mundo. Começou a refletir e se colocou no lugar daquela mulher. Não entendia como ela pôde seguir em frente… Ela simplesmente não se permitia ser um peão do destino. Isso era o ápice da bravura. “Eu já teria me matado”, pensou, e sacudiu a cabeça, como quem espanta pernilongos, mas no caso era pensamentos. Lembrou que havia mais vídeos para serem assistidos e percebeu seu coração bater mais forte. Não conseguia se segurar, tinha que ver outro… Estava animado. Clicou em outro link. Dessa vez era uma pessoa bonita. Um cara forte, malhado, sem falhas no cabelo, tatuagem tribal no braço esquerdo. “Person diagnosed with clinical depression shares his experience”. Tentou assistir e tentou ter empatia, mas não era a mesma coisa. Aquilo não provocava uma catarse, pelo contrário. Fechou e temeu pelo fim da droga que tinha descoberto. Clicou em outro link, cruzando os dedos para ser uma pessoa completamente fudida fisicamente. Ufa! Era uma criança com uma síndrome com um nome muito estranho! Origem polonesa, talvez? João se perguntava, como que aquela pessoa iria trazer uma mensagem de superação se ela não conseguia se comunicar direito, pois tinha a inteligência gravemente debilitada pela sua condição. Apenas respondia com risadas ou com desespero. Então o entrevistador, corajoso como nunca, começou a cantar uma musiquinha de criança para ela. “The frog doesn’t wash his foot, doesn’t wash because he doesn’t want to…” e a criança caiu na gargalhada. Aquilo era lindo de se ver! A mãe olhava, preocupada, mas sorrindo ainda. “Ela é meu tesouro!” disse para o entrevistador. A irmãzinha mais nova, que sentava distante ficou quieta. O entrevistador perguntou a ela se ela gostava da irmã, ela olhou para a mãe e disse que sim, que amava ela. João pensou “porra, vida difícil dessa irmãzinha também!”. Sentiu uma leve catarse vendo esse vídeo também. Foi dormir, já estava se sentindo muito melhor. Até fez cafuné na mulher, que dormia roncando que nem uma porca. “Falo que ela é retardada… Mas ela poderia realmente ser! A vida é boa para mim!” João pensou. No dia seguinte ele acordou e foi na casa de Jeremias… O abraçou — “você deveria ser psicólogo, Jeremias, sua sugestão curou minha tristeza! Sou um novo homem!”. Jeremias apenas sorriu e falou “nada melhor que ver uma pessoa realmente mais fudida que nóis, né não?”.

Publicado por Arthur Lorenzo

Eu, na escuridão, tenho minha própria fonte de luz.

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